Quando a dor da alma encontra a misericórdia de Deus.
Há alguns dias tenho lido o livro Cura para os Traumas Emocionais, do pastor David A. Seamands. Confesso que comecei a leitura pensando que encontraria um manual para curar traumas. Mas, à medida que avancei, percebi que o livro fala de algo ainda mais profundo: ele nos lembra da misericórdia de Deus.
Não é um livro que promete apagar toda dor de uma hora para outra. Pelo contrário, ele mostra que Deus não abandona seus filhos quando eles enfrentam ansiedade, depressão, traumas ou outras feridas da alma. Sua graça nos encontra exatamente onde estamos. Ele nos consola, nos sustenta e, no tempo dEle, continua nos transformando. Isso não acontece como um passe de mágica, mas como uma caminhada diária na presença de Deus.
Durante essa leitura, também conheci um pouco mais da história de Samuel Logan Brengle, um homem reconhecido por sua profunda vida de santidade, oração e dedicação a Cristo. Sua vida foi um testemunho vivo de amor ao Senhor. No entanto, uma frase que ele escreveu chamou profundamente a minha atenção:
"Meus nervos estavam em frangalhos, despedaçados, esgotados, e sobreveio-me uma depressão, essa velha conhecida minha."
Essa declaração me fez refletir.
Como um homem tão santo, tão comprometido com Deus e tão cheio de amor por Cristo podia enfrentar a depressão?
Talvez essa seja uma pergunta que muitos cristãos ainda fazem hoje. Afinal, por muito tempo ouvimos, mesmo que de forma indireta, que um verdadeiro cristão não deveria passar por problemas emocionais. Alguns chegam a pensar que a depressão é consequência de pouca fé, falta de oração ou ausência de intimidade com Deus.
Mas será que a Bíblia realmente ensina isso?
Quando abrimos as Escrituras, encontramos homens fiéis que enfrentaram profundo abatimento. Elias desejou morrer após uma grande vitória espiritual. Davi derramou sua alma diante de Deus em meio à angústia. Jeremias chorou profundamente por causa do peso do seu ministério. O próprio apóstolo Paulo escreveu sobre aflições que o levaram ao extremo de perder a esperança da própria vida.
A nova criatura em Cristo não deixa de ser humana. Ainda vivemos em um mundo marcado pela queda, onde nosso corpo, nossa mente e nossas emoções também sofrem os efeitos do pecado. A diferença é que agora não caminhamos sozinhos. Deus está conosco em cada etapa dessa jornada.
Isso não significa que devemos nos conformar com a ansiedade ou a depressão. A Palavra nos convida a lançar sobre o Senhor toda a nossa ansiedade, porque Ele cuida de nós (1 Pedro 5:7). Ela nos chama a lutar, a perseverar e a buscar ajuda quando necessário. Mas também nos ensina que Deus não rejeita seus filhos por estarem emocionalmente feridos. Pelo contrário, Ele se aproxima dos quebrantados de coração e salva os de espírito abatido (Salmo 34:18).
Creio que o problema não está na pessoa que enfrenta uma luta emocional. O problema, muitas vezes, está na maneira como nós, cristãos, enxergamos esse assunto. Durante anos, criamos um tabu que fez muitos irmãos sofrerem em silêncio, com medo de serem julgados ou considerados fracos na fé.
Precisamos voltar para a Bíblia.
Ela nunca escondeu as lágrimas dos servos de Deus. Nunca fingiu que seus heróis eram invencíveis. Pelo contrário, ela mostra que eram vasos de barro, sustentados por uma graça extraordinária.
Talvez hoje você esteja carregando um peso que ninguém conhece. Talvez a ansiedade, a depressão ou as marcas do passado façam você acreditar que Deus se afastou de você.
Mas o evangelho nos lembra de outra verdade: a presença de Deus não depende da intensidade da nossa dor, nem da estabilidade das nossas emoções. Ela depende da fidelidade do próprio Deus.
A graça não elimina todas as tempestades desta vida, mas nos sustenta em cada uma delas. E, enquanto caminhamos com Cristo, Ele continua fazendo aquilo que sempre prometeu: transformar pessoas quebradas para a glória do seu nome.
Por: Alba Ferreira

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